A Super Quarta de setembro concentrou as atenções dos mercados nas decisões de política monetária dos Estados Unidos e do Brasil, com os dois bancos centrais seguindo caminhos diferentes. Enquanto o Federal Reserve elevou os juros pela primeira vez desde 2023, o Copom deu continuidade ao ciclo de redução da Selic. Mesmo com movimentos opostos, as duas autoridades mantiveram uma postura cautelosa diante de um cenário ainda marcado por inflação elevada e incertezas sobre a atividade econômica.
Nos Estados Unidos, o Fed elevou a taxa básica de juros em 0,25 ponto percentual, para o intervalo entre 3,75% e 4,00%, em decisão unânime. A alta já era amplamente esperada pelo mercado e ocorreu em meio à persistência das pressões inflacionárias. O Comitê avaliou que a atividade econômica segue crescendo em ritmo sólido, com gastos domésticos resilientes, produtividade forte e investimentos robustos, enquanto o mercado de trabalho permanece relativamente estável. Na coletiva após a decisão, Kevin Warsh destacou que a inflação ainda exige atenção e evitou antecipar os próximos passos da política monetária.
As novas projeções do FOMC também apontaram para uma postura mais restritiva. A estimativa para o crescimento do PIB em 2026 passou de 2,2% para 2,3%, enquanto a projeção para o desemprego recuou de 4,3% para 4,1%. Para a inflação medida pelo PCE, a expectativa subiu de 3,6% para 3,7%, e a mediana para a taxa dos Fed Funds ao final de 2026 avançou de 3,8% para 4,1%. Além disso, 16 dos 18 dirigentes que apresentaram projeções indicaram pelo menos mais uma alta de 0,25 p.p. neste ano, o que sinaliza juros entre 4,00% e 4,25% ao fim de 2026. A expectativa de retorno da inflação à meta de 2% também foi postergada para 2029.
No Brasil, o Copom reduziu a taxa Selic em 0,25 p.p., de 14,00% para 13,75% ao ano, no quinto corte consecutivo. O Comitê apontou uma moderação gradual da atividade econômica, principalmente nos setores mais cíclicos, embora o mercado de trabalho continue aquecido. A inflação cheia e as medidas subjacentes também apresentaram desaceleração, mas seguem acima da meta. As expectativas do Focus estão em 4,9% para 2026 e 4,3% para 2027, enquanto a projeção do próprio Copom para o primeiro trimestre de 2028, atual horizonte relevante, está em 3,2%.
Mesmo com a continuidade dos cortes, o Banco Central manteve uma comunicação prudente. O balanço de riscos segue mais elevado que o usual e com assimetria de alta, diante da desancoragem das expectativas, da persistência da inflação de serviços e das incertezas no ambiente externo. O Copom indicou ainda que a magnitude total do ciclo dependerá dos próximos dados e da evolução do cenário. No geral, Brasil e Estados Unidos seguem em momentos distintos do ciclo monetário. O Fed retomou a elevação dos juros diante de uma economia ainda resiliente e de uma inflação acima da meta, enquanto o Copom avançou com mais uma redução gradual da Selic, em meio à moderação da atividade e da inflação corrente. Apesar das trajetórias diferentes, os dois bancos centrais seguem cautelosos e atentos aos próximos indicadores. Com isso, a Super Quarta de setembro mostrou que a evolução da inflação continuará sendo determinante para os próximos passos da política monetária nos dois países.